quarta-feira, 24 de maio de 2017

COMIDA E MEMÓRIA OU COMENDO COM OS GREGOS EM KALYMNOS

      Já há algum tempo li um livro que gostei muito tratando de comida e memória. Pensei em fazer uma resenha, mas o tempo foi passando e outras obrigações impediram-me a realização de tal feito. Agora, resolvi fazer algumas anotações sobre o exemplar, denominado Remembrance of Repasts. An Anthropology of Food and Memory  (Oxford-New York: Berg, 2001 ), de David Sutton. O livro é uma extensão do trabalho de pesquisa realizado pelo autor na ilha de Kalymnos, na Grécia, em 1998. Tem início com uma introdução denominada Uma antropologia Proustiana?, seguida dos capítulos: O ritual e o cotidiano; Lembrando de presentes, esquecendo de mercadorias?; Memória sensorial e a construção de mundos; Refeições memoráveis; Fazendo/Lendo o cozinhar e a conclusão intitulada Recapturando a refeição.
     O trabalho na sua Introdução faz uma revisão crítica da questão da comida e da memória, utilizando-se de autores que renovam os paradigmas vigentes, vendo a forma que as sociedades dividem os trabalhos sobre os sentidos diferencialmente, “fazem o sentido do mundo”, criticando o bias visualista que tem dominado as sociedades ocidentais. Sutton estabelece que, em momentos de revitalização da memória de migrantes gregos, quando o passado torna-se presente, e em fases de lembrança prospectiva, quando o futuro emerge com o passado, ou mesmo na cozinha nostálgica, em que a comida processada é recolocada como uma refeição imaginária, “realmente real”, a comida oferece alguns dos maiores pontos de pontos de entrada no quotidiano dentro da experiência de mistura de temporalidades.
     Nos dois primeiros capítulos, o tópico da generosidade com a comida, implica na abordagem da interessante questão teórica concernente à memória e a troca. A comida internaliza débitos e  os repetidos atos de generosidade geram amizades e memorável reputação em Kalymnos. Uma preocupação atravessa o livro: o aumento do fluxo internacional de alimentos e as pessoas que os comem, e o que a globalização pode significar para a mudança das praticas da memória da comida. Se uma das questões importantes da antropologia é como a globalização reconfigura identidades e experiências, a memória da comida nos oferece numerosos pontos de entrada nesse tópico. Exemplificando, o autor diz que produtos locais tornam-se parte de circuitos globais de troca entre a “casa” e a vida de migrantes transnacionais; enquanto produtos estrangeiros, como o queijo Roquefort, são identificados como componentes das especialidades dos kalyminianos e parte das relações sociais locais, como quando um homem usa esta mercadoria como um protesto contra a qualidade do queijo produzido pelos vizinhos.
     Um antropologia atenta à experiência sensorial, como diz o autor, tem muito a nos dizer  sobre o evocativo poder da memoria da comida, ao mesmo tempo que desafia a estrita dependência à interpretação simbólica ou semiótica. Memórias do gosto e do cheiro, por sua natureza tenderão a ser idiossincráticas, associadas ao acaso, como oposta aos símbolos que podem ser mais cognitivamente coletivos. Mas, isto não significa que a memória do gosto e do cheiro não são iluminadas por campos associativos, em que eles são aprendidos e experimentados, consoante a geração, o gênero, a classe e a etnia.
     Adiante, ele aborda diferentes perspectivas recorrendo à “mesmidade” e à diferença, a continuidade e a mudança, o oral e o escrito, a tradição e a modernidade, em relação à estrutura das refeições e o processo de aprender/fazer comida. Comparando e contrastando sua etnografia dos kalyminianos com as pesquisas feitas nos USA, David Sutton ressalta a produtividade da noção de memória e que existem muitas diferentes formas estruturadas culturalmente em termos de práticas de alimentação, refletindo diferentes consciências históricas. Ele argui contra o uso simplório da dicotomia de “comunidades tradicionais fechadas” e “sociedades, abertas, modernas”; antes, ele tem tentado mostrar a extensão de “seguir a tradição”,  envolve escolhas, reflexões e variações. E também demonstrar que a extensão de “fazer sua própria escolha” significa uma prescrição culturalmente imposta, com implicações para a espécie de  memória da comida que será reproduzida na sociedade, sob a persuasão de uma ideologia da modernidade.
     Mordaz, traz à consideração a “mercantilização da nostalgia”, parte da estratégia de festivais étnicos, que muitas vezes tem a sua gênese na economia. Não esquece da “memória da fome” entre os kalyminianos durante a Segunda Guerra Mundial. De forma provocativa, ele percebe o desdém para o passado culinário na cultura popular dos USA. Então, esquecer é um problema, que implica em análise, daí levantar a questão: pode haver um papel produtivo para o esquecimento das comidas do passado?
        Muito mais ele analisa e problematiza; concluindo coma necessidade de mais etnografias, que comecem da premissa que comida não é simplesmente outro tópico que “simboliza” identidades, mas um campo que nos desafia repensar nossos métodos, concepções e teorias em novas e produtivas formas.

         Quando comecei disse que já havia lido há tempos o livro de David Sutton, daí que escrever sobre o mesmo foi provocado pelo excelente artigo de Ellen Woortmann, Memória Alimentar: prescrições e proscrições, no livro Ensaios sobre a Antropologia da alimentação: saberes, dinâmicas e patrimônios, organizado pela própria Ellen e Júlia Cavignac, sendo editado pela ABA Publicações e Edufrn, 2016, PDF; 12 MB.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

NOTÍCIAS DA PROVÍNCIA

Hoje, eu faço homenagem a um  grande profissional, professor titular da UFBA, responsável pela formação de  varias gerações de historiadores. João José Reis, dispensa comentários sobre a sua produção, grande parte dela publicada internacionalmente, é o Coordenador do grupo/linha de pesquisa Escravidão e Invenção da Liberdade, de onde emergiram dezenas de mestres e doutores, sendo grande parte dessa produção publicada. O seu Programa congrega os grandes nomes da historiografia baiana, além da interrelação com os grandes programas e cientistas nacionais e internacionais. Aqui, falo de outra grande contribuição de João Reis, a sua condição de editor da revista Afro-Ásia, do Centro de Estudos Afro-Orientais, a mais antiga da América Latina, criada em 1965, a se dedicar a assuntos africanos, afro-diaspóricos e asiáticos. A partir de 1995, assumiu a edição da revista, publicando autores locais e nacionais, e atraindo o que de melhor existia no campo internacional. Tornou-a – adicionando ao já feito – uma revista indispensável a todos que se interessam pela temática. Na sua viagem à Alemanha, em Berlim, passou trabalhando sobre a Afro-Ásia, em conjunto com Carlos da Silva Jr.  Aí , explorou um dos âmbitos da Afro-Ásia, pois embora já não seja seu editor geral, continua assessorando a sua publicação e tratando das resenhas. Vamos ao realizado.
  Atlântico de Dor. Faces do Tráfico de Escravos ( Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino Traço, 2016 ), é uma coletânea organizada por João José Reis e Carlos da Silva Jr., com a trabalhosa revisão dos textos, numa parceria do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Recôncavo com a Fino Traço Editora. Os textos reunidos foram publicados na revista Afro-Ásia, até 2015, quando alcançou 50 números. Os organizadores, escreveram uma consistente introdução, denominada Decompondo o Tráfico, dividindo a obra em seis partes: 1. O Atlântico escravista: açúcar, escravos e engenhos; 2. O tráfico proibido; 3. Dilemas do africano livre; 4. Tráfico interno; 5. África do tráfico; 6. Diásporas daqui e de lá.
Apenas para situar, ali estão Joseph Miller, Ubiratan Castro de Araújo, Beatriz Mamigonian, Richard Graham, Erivaldo Neves, José Curto, Maria Inês Côrtes de Oliveira, Renato da Silveira, Dale Graden, Michael Turner,  Robin Law e tantos outros, com a mesma qualidade e importância dos citados. Enfim, aparecem nas mais de 700 páginas, o que de melhor foi realizado sobre o tema nas últimas décadas.

A revista continua viva, sob a competente editoria de Jocélio Teles dos Santos e Wlamira Albuquerque, sendo João José Reis, o editor das resenhas. Está toda digitalizada, gratuita, podendo ser consultada através do site www.ceao.ufba.br           

quinta-feira, 27 de abril de 2017

UMA HISTÓRIA SABOROSA DO MUNDO

           Quando comprei o livro “Uma História Saborosa do Mundo. Dez milênios de globalização” ( Portugal: Casa das Letras, 2008 ), o fiz mais por curiosidade, já pensando ser mais uma dessas obras enciclopédicas, rasas e repleta de exotismos, sem maior significado.  Tampouco conhecia o autor. Errei redondamente. Santa ignorância! Primeiro, o autor é altamente qualificado, com vasta produção em áreas como escravidão, história das doenças, alimentação e nutrição. Quando escreveu o livro, era professor catedrático na Universidade Estatal de Bowling Green. Foi o organizador da obra, em dois volumes, The Cambridge World  History of Food, sendo o livro aqui apresentado baseado nela. Ao contrário do que pensei inicialmente, é um livro denso, consistente, indispensável para quem tem interesse em alimentação.
           A apresentação já nos oferece uma visão geral da pretensão do autor: uma perspectiva da globalização dos alimentos, desde os dias dos caçadores-coletores até aos atuais produtos transgênicos, de origem animal e vegetal. Caminhamos, após os caçadores-coletores, com a institucionalização da agricultura e a domesticação dos animais, e a consequente difusão das culturas agrícolas em varias partes do mundo. Após, concentra-se no “intercâmbio de Colombo”, com trocas de plantas e animais, que revolucionaram a demografia de todos os cantos do mundo. E nos últimos capítulos, é abordado o impacto da industrialização, no processamento e distribuição dos alimentos; concluindo com os problemas atuais relacionados com a alimentação, desde a fome à obesidade, passando pelo impacto da biotecnologia alimentar e da indústria de comida rápida. Uma boa apresentação, sintética, mas que oferece um quadro geral do que espera o leitor.
           São 27 capítulos, envolvendo desde: os últimos caçadores e os primeiros agricultores; os animais e as plantas das diversas partes do mundo; as consequências do Neolítico, as empresas e os impérios; o Novo Mundo e seus alimentos; o intercâmbio de Colombo e suas trocas com os Velhos e Novos Mundos; o açúcar e as novas bebidas; o imperialismo ibérico e a abundância no paraíso; as fronteiras dos alimentos estrangeiros; capitalismo, colonialismo e culinária; noções de nutrientes e nutrição; globalização e as escolhas da abundância; comida rápida: um hino à celulite; nós e a fome e abundância que nos ameaça.
           É um livro indispensável para cursos de Antropologia, Nutrição, Saúde e Gastronomia, por abarcar temáticas variadas, sem cair no senso comum ou nos achismos. E esperar que a nossa indústria editorial não demore para a tradução completa da obra de Cambridge.    

segunda-feira, 24 de abril de 2017

ENCONTROS ETNOGRÁFICOS SOBRE ALIMENTAÇÃO II

Dou continuidade a artigos da coletânea organizada por Leo Coleman. Food.Ethnographic Encounters. London-UK/New York,-USA: Berg, 2011.

Claire Nicholas. Cuidado fora da cozinha: cozinha e poder em uma residência marroquina.
É um estudo sobre uma cooperativa de tecelãs e suas famílias.  A autora viveu em uma família chefiada por uma mulher, sendo ela e sua filha mais velha tecelãs; já os afazeres domésticos eram de competência da filha mais jovem. No aspecto concernente à comensalidade, existia uma divisão equitativa. Porém, o fundamental no artigo é a discussão levantada por Nicholas sobre a sua condição como observadora-participante. Ela vivia na casa, pagando pelo abrigo e pelas refeições. Eis os problemas. A apropriação da pesquisadora pela chefe de família, inclusive restringindo as suas relações com as mulheres das outras famílias. A comida aparece em duas situações, gerando constrangimento: 1) a tentativa de inovar o cardápio; 2) quando doente, comprou granola. O que se explicita é a dificuldade de uma pesquisadora americana, considerada rica, pagando pouco e com uma pesquisa ininteligível. E a frustação da pesquisada sobre os possíveis benefícios que adviriam da “estrangeira”.

Kathleen C. Riley. Aprendendo a trocar palavras por comidas no Marrocos   
Trabalho de campo nas ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. A autora buscava estudar a socialização pela linguagem para a obtenção de alimentos. Segundo ela, quando somos crianças, a socialização pela linguagem envolve, primeiro, o aprendizado de como trocamos sons por comida, e, após, comida por palavras. E este aprendizado ocorre diferencialmente nas diversas culturas, via diferentes linguagens em todo o mundo. Nas Marquesas se vive basicamente de fruta-pão e peixe, sendo o porco muito apreciado. Ali, as crianças são socializadas no contexto de duas culturas e línguas: a Polinésia indígena e a França colonial. Riley percebe as mudanças pela penetração dos costumes franceses, inclusive a transformação dos ritos de hospitalidade, devido à presença do dinheiro. Ela aponta a dificuldade para entender como as crianças vinham a adquirir comida e, mais ainda, de ser aceita no grupo que pretendia pesquisar. Com persistência, conseguiu finalmente estabelecer uma rede de relações com  as famílias e, em especial, com as crianças. Ela observou que à proporção que as crianças adquiriam competência linguística e conhecimento cultural, elas aprendiam como se engajar no dar e receber comida. Recursos de comunicação, específicos morfemas para instâncias pragmáticas, assinalavam o local e socializavam a compreensão de como alimentos e falas jogavam um papel fundamental na vida em sociedade. Enfim, a autora para realizar a sua pesquisa foi adotada por um membro da comunidade, assim como  também ganhou semi-competência linguística – indispensável para a sua abordagem da realidade.

Leo Coleman. Guia para uma leitura mais adiante.
É uma síntese dos estudos contemporâneos sobre a comida, consoante as variadas temáticas. 1. Comida para pensar; 2. Consumo e política; 3. Fome, desejo e desgosto; 4. Globalização e consumo; 5. Estabilidade e mudança; 6. Substâncias e sentidos.  Tudo isso acompanhado por uma bibliografia atualizada sobre as temáticas propostas.
Muito mais poderia ser dito sobre outros artigos do livro, mas isso fica para o leitor interessado no assunto.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Encontros Etnográficos sobre Alimentação I



                            
A realização de etnografias no campo da Antropologia da Alimentação é sempre uma tarefa árdua. No plano doméstico, exige a necessidade de penetrar no âmbito privado, no “chegar à mesa”, trabalho nem sempre fácil; no campo das empresas, maior ainda é a dificuldade, pelo temor dos empresários em relação à legislação vigente e pela imagem do empreendimento. Dai, no primeiro caso preponderarem as representações ou modos de pensamento ( verbalizações), enquanto no segundo caso, tem maior vigência a observação das práticas dos atores ou modos de ação. Isso tudo sem adicionarmos as circunstâncias da investigação e as idiossincrasias dos investigadores.            

Por isso gostei da coletânea organizada por Leo Coleman, intitulada Food. Ethnografic Encounters. ( London/New York: Berg, 2011 ), que se inicia com uma instigante introdução do autor, abordando desde  o que é uma etnografia da comida e as temáticas nela presentes – de certa forma, vinculadas aos artigos do livro –, dos encontros, locais, moral, reciprocidade, até segurança alimentar. Vou apresentar sinteticamente alguns artigos e as questões ou problemas que levantam para os antropólogos.

Começo com o artigo de Ana Meneley, Comida e moralidade no Yemen.

A pesquisadora ficou doente do estômago, gerando dificuldades evidentes no seu trabalho de campo. A segregação de gênero nas praticas alimentares. A importância da generosidade hospitalidade. A prática de não falar durante  as refeições. A recusa da comida como uma ofensa. A importância da comida de camelo. Qat é uma folha que contém suave anfetamina: cada convidado traz seu qat. Mada´a  é um grande tubo de água em que fumo não-curado é aspirado. “Você mastiga Qat, fuma o mada´a, se veste modestamente, usa khalas, agora você é uma yemen”. Aquele que bebe álcool é uma pessoa ruim. Ela teve problemas com o Ramadã. Confessou que bebeu água e elas disseram entender: “os ocidentais são fracos para serem muçulmanos”. A comparação com a comida americana – conhecida em todo mundo –, é considerada  incompreensível e sem importância para os muçulmanos do Yemen.

Penny van Esterik. Revisitando a comida do Lao: dor e comensalidade

É um artigo que analisa as dificuldades de adaptação do antropólogo a um sistema alimentar diferenciado, marcado por insegurança nutritiva. Fica uma questão no ar: deve o antropólogo participar da forma de comer de outros povos ou ser apenas um analista? Se não participa pode ser uma ofensa, podendo inclusive impedir a realização da investigação. Se participa, pode correr o risco de ficar doente. Lembro do caso do antropólogo baiano Júlio Braga, que, ao participar de uma refeição comunal na Nigéria, teve uma forte infecção intestinal, que provocou o seu retorno ao Brasil.

Christophe Robert. Vegetariano comendo na China.

É uma situação complexa: o investigador é vegetariano. Algo que se distancia inteiramente das formas apropriadas de comer para um homem na China. Ele recebe o apelido curioso de um astro local gay: já é um indicio da sua condição. Ele vive entre as mulheres, pois o vegetariano se contrapõe ao ideal de virilidade local. 

Voltarei na próxima semana, ainda com os encontros etnográficos.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Uma família de fé e tradição afro-baiana: a família Santana – Parte Final


Um culto ancestral: os terreiros de Egun, por José Santana Sobrinho

                                                                

                                                                       Os mortos dão continuidade à vida

                                                                       Mensagem de José Santana Sobrinho

                                                                                             

Por intermédio de Paulo Santana, conheci o seu irmão José, o mais velho entre os filhos vivos de Jaguaracira Santana. Tinha um comportamento admirável: demonstrava  maturidade,  calmo, ouvia mais que falava, além de ser um perfeito gentleman. Com formação acadêmica, professor da Universidade de Feira de Santana, logo nos tornamos bons amigos. Não era incomum, semanalmente, nos finais de tarde ele aparecer no CEAO, então no Pelourinho, para agradáveis bate-papos. Sempre curioso sobre os africanos, às vezes, deixava-me, sem respostas para as suas perguntas. Eu pesquisava sobre o assunto e retornava o conhecimento adquirido para ele. Evidente que eu deixava explicito, a minha fragilidade e ignorância, sobretudo em relação à  África. Apresentou-me um artigo seu numa coletânea sobre a capoeira na escola, afinal, a sua formação era em Educação Física. Gostei do artigo, mas pressentia que a sua ambição intelectual era outra. Logo após, chegou a Salvador o professor Félix Ayoh´omidire, nigeriano da iorubalândia, que veio para a Bahia para estudar – tornou-se Doutor em Letras na UFBA – e ensinar a língua dos ancestrais de José Santana Sobrinho no CEAO. Tornou-se José um aplicado aluno, destacado por seu professor, inclusive tornando-se amigos, além de outros vínculos estabelecidos no campo da religião. O tempo passou e, entre outras coisas, um dia, levando os alunos americanos para um terreiro de Egun em Ponta de Areia, na ilha de Itaparica quase ele “comete um homicídio” ao fazer-me acompanha-lo na ladeira que conduzia à instituição. Fumante então, por pouco não tive um infarto. Após a preocupação com minha saúde, fui objeto de grande gozação. Para ele, um atleta, foi apenas uma simples caminhada. Lembro isso para refletir que os deuses e seus antepassados talvez o tenham conduzido tão cedo ao Orun, pois tinham uma missão maior a ele destinada. E com certeza, invisível, está velando por sua família e amigos.

Posteriormente, vim a saber, por Júlio Braga, que ele iria julgar a dissertação de José Santana Sobrinho, sobre os Eguns, na UNEB. Perguntei logo: que tal, “meu patrão”? – “Está boa, ele conhece”, disse-me o amigo querido. A sua dissertação transformou-se no belo livro, editado pela EUFBA, em 2015, com o titulo Terreiros Egúngún. Um culto ancestral afro-brasileiro.  Pensei comigo, está mexendo em formigueiro, afinal, já existiam sobre o assunto os livros de dois consagrados especialistas na religião afro-baiana: Juana Elbein dos Santos, com Os Nagôs e a Morte: pade, asese e o culto de egum na Bahia ( São Paulo: Ágora, 1975) e Júlio Braga, com Ancestralidade Afro-Brasileira. O Culto de Babá Egum  (Salvador: Ceao/Ianamá, 1992).  As “formigas” passaram distante, pois José Santana Sobrinho, não repete, tampouco contradiz o já dito, mas antes contempla aspectos mais amplos do culto, de forma didática, que torna plausível a compreensão para leitores os mais heterogêneos possíveis.  

        É um livro de conteúdo denso, com uma amplitude de informações, resultado de sua formação acadêmica e da sua ampla vivência na religião afro-baiana, que revelam a grandeza do seu trabalho de campo. Vou abordar apenas alguns aspectos, que demonstram a importância do seu livro.

           Segundo José Sobrinho, nos inícios do século XIX, com a derrota de Oyó, capital militar dos iorubanos, para o reino do Daomé, o seu povo foi aprisionado e conduzido como escravo  para a Bahia. Sendo Xangô um dos reis de Oyó, objeto principal de culto no reino, foi mantido na Bahia. Cultuado como orixá, dele também provém a tradição ancestral masculina Egúngún, babá Egun ou simplesmente babá ou egun. Os Eguns tanto podem ser espíritos de mortos do sexo masculino, assim como podem representar ancestrais coletivos. A presença dos Eguns é a certeza da continuidade da vida. Como diz Santana, os adoradores acreditam que aquilo por baixo das coloridas tiras de pano que veem é um ancestral. E basta. A roupa, denominada axó, em volta do espírito do antepassado simboliza o ritual do mistério e não se deve, ressalta o autor, por descrença ou curiosidade procurar saber o que há por baixo. Isso poderá inclusive, dizem os crentes, conduzir à morte. Não devemos, nós, pobres mortais, nem mesmo tocá-los. Daí a preocupação dos sacerdotes, os Ojés, com sua vara sagrada, em não deixa-los aproximar-se dos assistentes das cerimônias.

       O culto dos Eguns é uma festa para o espírito dos antepassados, preservando o sentido de coletividade e a harmonia dos grupos familiares. Eles se apresentam ao público, após os ritos tradicionais secretos, cobertos com panos coloridos, enfeitados com búzios, espelhos, contas e miçangas. Falam em iorubá, de forma gutural,  inteligível apenas para uns poucos iniciados. O Egun é o pai que ali está retornado, de famílias, linhagens ou dinastias reais. Embora sendo uma espécie de maçonaria masculina, segundo Sobrinho, nele também aparece o poder feminino, representado por Oya Igbalé, rainha dos Eguns. Oya ( Iansã) é cultuada junto com os Eguns, conforme indicam os mitos que a identificam como detentora do poder com os mortos.

     De forma didática, demonstra a forma de organização do culto, onde os membros, de forma geral, pertencem à família dos antigos sacerdotes. Os filhos que acompanham a tradição, cedo começam a frequentar os rituais. Inicialmente, após um Egun dar-lhe um isan, o membro, em geral entre 18 e 22 anos, torna-se um amuisan suspenso. É o primeiro grau da iniciação, onde, agindo com responsabilidade e respeitando a tradição, poderá ser confirmado pelos Alagbás ou Ojés mais velhos. Entretanto, o amuisan não conhece o segredo de invocação dos Eguns.  A categoria seguinte, um passo fundamental para alguns amuisans é tornar-se Ojé, um sacerdote do culto dos Eguns. O mariwô é o Ojé, o mistério sagrado entre a natureza e o humano. Os Ojés tem uma relação com o orixá Ogun, pois, segundo o mito, ele retira das mãos de Oya e das mulheres o segredo do culto dos antepassados Egúngúns. Os Ojés, segurando sua vara ritual, o isan, invocam os Egúngúns, batendo-a no chão.  Mariwô é também  o nome do  Ojé mais velho do terreiro, chamado Alagbá Babá Mariwô. O Alagbá é o ancião do terreiro dos Eguns. Ele possui dois auxiliares, o otun ( direita) e o ossi (esquerda) Alagbá. Acima do Alagbá, sem entrar nas querelas que envolvem o posto, está o Alapinni, que segundo a tradição africana e brasileira, seria o chefe supremo de todos os terreiros de Eguns. Entretanto, seja no passado ou no presente, a tradição tem sido quebrada, por vezes havendo mais de um Alapinni.  Além dos títulos citados existem, além dos alabés, os responsáveis pelos instrumentos sagrados, que produzem a música das festas, vários outros postos executivos e honoríficos, concedidos a homens, mulheres e jovens mais destacados.

            Como não poderia deixar de acontecer há uma relevante etnografia sobre a morte, Ikú, na língua ioruba. Tem início com a retirada dos pertences do falecido do quarto dos orixás; o ritual do velório e do sepultamento, com suas canções fúnebres e peculiaridades; as diferenças entre as cerimônias do culto dos Eguns em Salvador e Itaparica, despontando a questão do tempo do ritual fúnebre. Enfim, é um relato denso sobre o morrer.

            Ebó Odun Ikú é o 2 de novembro, dia de finados, é objeto de grande festa no culto dos Eguns. São três dias de obrigações, com muitas oferendas aos Eguns, como velas, flores,  obis, acaçás, animais votivos, como galos, carneiros, pombas e cobras.  É a celebração dos antepassados, onde o sentido da morte aparece para a comunidade como a renovação e a continuidade da vida. Nem de longe expresso o produzido por José Santana sobre as cerimônias. Apenas cito a sua abordagem da casa de adoração dos ancestrais – Ilê-Ibó-Akú Ati Ilê Igbalê - ; a adoração doméstica, o local e suas cerimônias; as obrigações do presente de Iemanjá – Ebó Odun Iyá l´Odô – no dia 2 de fevereiro; a força feminina na sociedade masculina do culto – Egbé Orin – os seus títulos honoríficos, a responsabilidade pela cozinha ritualística, os cânticos na roda de Exu, além da saudação aos Orixás e Eguns; o titulo denominado Elefundê Ejidê Olukotun, existente no Ilê Asipá, concedido em 1967, na cidade de Ibadan, a Juana Elbein dos Santos. Em seguida traça uma pequena história de vida das Iya Egbé, o titulo honorífico da responsável pela comunidade, conhecidas dos terreiros: 1) Mãe Senhora, Maria Bibiana do Espírito Santo  (1890- 1967) , cuja vida se entrelaça com a história dos terreiros Egúngúns, mãe do Mestre Didi: presente desde o terreiro do Tuntun velho de Marcos Teodoro Pimentel, Alapini Tuntun, no qual ela tinha o título de Otun Iya Egbé. Contemporânea de antigos sacerdotes como Eduardo Daniel de Paula e posteriormente do Alagbá Antonio Daniel de Paula. Muito mais ele diz sobre a grande sacerdotisa, não esquecendo os vínculos de amizade com Miguel Santana, o Obá Aré, do Afonjá, uma das figuras mais importantes da religião afro-baiana  2) Maria Saloméa Daniel de Paula ( Saló) ( 1900-1984), Ialorixá do terreiro de Ponta de Areia, assume o posto de Iyá Egbé Omo N´ilê Agboulá, em 1967, com a morte de Mãe Senhora.  D. Saló, como era conhecida foi uma das esposas de Arsênio Paizinho Otun Alagbá. 3) Maria Beatriz Ferreira Novais, conhecida por Iyá Egbé Mariinha, nascida em 1917, foi herdeira direta de Marcos Teodoro Pimentel. Filha do famoso Paizinho, já citado, que faleceu em 1967, durante a pesquisa de José Santana Sobrinho, com 91 anos, ainda participava dos rituais religiosos. Vale salientar que uma das famílias que acompanhou Mestre Didi do Ilê Agboulá para o Ilê Asipá faz parte dos descendentes de Marcos do Tuntun – D. Mariinha, Iyá Egbé, D. Olinda, Otun Iyá Egbé e Genaldo Novais, Alagbá, herdeiros da adoração de Babá Olukotun.

       Embora possam ter existido anteriormente, já nas primeiras décadas do século XIX, inexiste documentação, daí o que se conhece emana da memória coletiva dos terreiros: no princípio os fundadores do culto dos Eguns tinham adoração por um ancestral, por exemplo Babá Okulelê, seria o espírito ancestral do pai de tio Serafim, sacerdote de origem nagô, famoso em meados do século XIX, e que fundou o terreiro em homenagem ao seu pai. Ou no caso de Babá Olukotun que teve seu “assento” trazido por Marcos, o velho, e por seu filho Marcos Teodoro, em sua viagem à África, no final do século XIX.  Os primeiros cultos perfeitamente identificados, já no século XX, foram o Ilê Agboulá, fundado por Eduardo Daniel de Paula; o Ilê Oyá, criado pelo irmão de Daniel, Olegário Daniel de Paula, na Ilha de Itaparica. Entretanto, sempre recorrendo ao passado, a preocupação de José Sobrinho é  com a expansão do culto dos Eguns, a partir da década de 1980 até 2009, seja na Ilha de Itaparica, seja em Salvador. É aí que podemos ver o pesquisador e o religioso. O pesquisador, demonstrando os dias e noites “perdidas” a acompanhar a vida dos diversos terreiros, além da excepcional documentação emanada das entrevistas com as principais lideranças dos cultos de Eguns; o religioso, a refletir criticamente, conforme a sua ortodoxia, sobre as mudanças ocorridas nos cultos de Eguns: a rapidez na concessão dos cargos, o aumento do número de festas, a presença de máquinas fotográficas e filmadoras ( que credita a um precedente do passado), a quebra da senioridade na sucessão e outras transformações que não são consonantes com a tradição ancestral.

    Não poderia deixar de abordar o seu terreiro, o Ilê Asipá, em homenagem à família africana Asipá, do seu fundador, Mestre Didi. Foi fundado em 2 de dezembro de 1980, denominado Sociedade Religiosa e Cultural Ilê Asipá, localizada em Piatã, com acesso pela Avenida Orlando Gomes, em Salvador. O terreiro, conforme Sobrinho, é dedicado à continuidade da linhagem da família de Marcos Teodoro Pimentel, Alapini Tuntun, com quem Mestre Didi foi iniciado ainda criança e o qual tem como patriarca do terreiro Babá Olukotun. O mestre Didi, relata o autor, teve a sua formação litúrgica iniciática com os maiores sacerdotes e sacerdotisas da Bahia. No conhecimento lessé Orixá, é filho biológico de Mãe Senhora, tendo o título de Assoba n´ilê Afonjá, confirmado por Mãe Aninha Oba Biy. No conhecimento lesse Egun, foi discípulo de Arsênio, Paizinho, com o titulo de Korikowê Olukotun. Outra grande influência na vida pessoal e religiosa foi de Miguel Santana, Oba Aré, Ojé Orep e  Zabá, o mais alto posto no terreiro dos africanos Tapa, o sacerdote supremo. Quando o terreiro Asipá foi fundado, os descendentes das famílias de Arsênio e Miguel Santana foram convidados e aceitaram participar da fundação e dos rituais do novo terreiro de culto à ancestralidade.

            Reconhecido pela comunidade sacerdotal dos Eguns, Mestre Didi é o Alapinni do Ilê Asipá. José Sobrinho o considera o Alapinni do Brasil e que deveria ser visitado e consultado por todos os lideres de terreiros. Infelizmente, hoje já não tenho o querido amigo para as conversas fúteis e brincadeiras, além de não esquecer da cerveja quente que tomávamos na segunda feira de carnaval. Nunca esqueci que um dos Ojés perguntou junto ao Mestre, qual o meu Orixá. Eu disse que não sabia. Aí o interlocutor disse-me para o Mestre jogar os búzios para mim. Ele respondeu, sorrindo: “saber prá quê, ele vai cultivar, não vai. Deixa quieto, quem tá quieto”. Era este o meu amigo, não a do profundo conhecedor da religião afro-baiana e africana tradicional. Felizmente, pude, com o apoio dos  meus colegas da Universidade Federal da Bahia, conceder-lhe o título de Doutor Honoris Causa.

Mas, voltemos ao precioso livro. No Asipá, o Alagbá é Genaldo Novaes, na época em que Sobrinho escrevia o livro, já tinha 30 anos de iniciação como Ojé do Ilê Agboulá. Genaldo é neto do famoso Alagbá, o “Paizinho”, figura de destaque dos terreiros de Eguns do passado. E filho legítimo de Maria Beatriz, Iyá Egbé N´Ilê Agboulá e Asipa. O titulo de Otun Alagbá é de José Félix dos Santos, neto de Mestre Didi, com 21 anos de iniciado como Ojé Ilê Agboulá, sendo filho legítimo de Nídia dos Santos, Iyá Badabarawô N´Ilê Asipá, filha do Mestre Didi. O título de Osí Alagbá era do autor, José Santana, com 25 anos de iniciado como Ojé do Ilê Agboulá, neto de Miguel Santana e filho legítimo de Jaguaracira Devezas Santana, Iyá Modé N´Ilê Asipá, filha de Miguel Santana. Fui a duas festas noturnas e alguns sábados durante o dia – poucos, 3 ou 4, se tanto – no Asipá e sempre fiquei entusiasmado pela dedicação, pelo respeito à hierarquia, à senioridade iniciática e á beleza dos rituais sagrados. Com o falecimento de Mestre Didi ocorrerá o processo de sucessão, que espero seja em paz, com todos unidos no fortalecimento de uma das mais importantes casas da religião afro-brasileira.
     Concluindo, a minha descrição – não é resenha – do livro está muito distante da densidade de informações, derivadas do trabalho empírico apresentado por José Santana Sobrinho. É uma obra fundamental para os estudiosos da religião de origem africana no Brasil, já vindo a sua 2a edição, o que demonstra que veio para ficar.    

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

NOVIDADES DA PROVINCIA DA BAHIA

                Resolvi  abrir no blog uma página para que nas quintas- feiras  eu envie notícias sobre o que se produz  na Bahia, seja através de livros ou revistas. Pode ser uma quinta-feira no mês ou duas, depende da existência de material.  Por exemplo, a revista Afro-Ásia do CEAO está toda digitalizada, é gratuita, com quase 50 números,  e pouca gente tem conhecimento. É só digitar www.ceao.ufba.br  e abrir no módulo Afro-Ásia. Pouco conheço sobre a produção das Universidades baianas- exceto a UFBA -, óbvio que a culpa é minha,  pois não faço mais viagens horizontais, só as verticais, como os xamãs e os malucos beleza. Evidente que o meu blog deve ter entre 5 a 10 seguidores, o que demonstra que ainda existem pessoas inocentes no mundo. Mas, quem tiver interesse pode enviar-me o material que eu divulgarei. Ah, por que Província?  Porque  a modernidade e o pretenso  cosmopolitismo, em especial, de Salvador,  cheiram mal.
            Agora em agosto aniversariou um querido amigo, o antropólogo Fábio Lima. Em junho ele me trouxe o seu novo livro, denominado Diáspora e Ancestralidade. Salvador: Kawo-Kabiyesile, 2015. Com suas peculiaridades estilísticas, ele narra a sua viagem a Oyó na Nigéria, trata da comida de santo, das suas palestras na Áfricas, além de abordar o corpo e a saúde no candomblé.
               Gustavo Falcón, doutor em Ciências Sociais, foi no passado Diretor da Edufba. Era o seu destino, além da criação de abelhas e  a  paixão pela cidade de Cachoeira, tornar-se editor. E encontrou uma parceira na sua loucura, minha “sobrinha”, sua filha Bárbara Falcón, tão querida por mim quanto seu pai. E, como dizia, uma maldosa tia, “quem puxa aos seus não degnera”: ela é um caso de seguir realmente os caminhos do pai, tornando-se, já jovem, uma promissora intelectual, com um Mestrado e primorosa dissertação. Os dois conduzem a Pinaúna Editora, inicialmente com uma coleção denominada Sons da Bahia. Um primor de realização gráfica, além de livros abordando, com qualidade, os vários gêneros  da  música baiana. Dificuldade de financiamento, sempre, daí  a distância das edições.
Em 2012, publicaram de Sueli Borges. Chegou a Hora Dessa Gente Bronzeada Mostrar Seu Valor: samba e brasilidade em Assis Valente; de Fabricio Mota. Guerreir@s do Terceiro Mundo: identidades negras na música reggae da Bahia; Bárbara Falcón. O Reggae de Cachoeira: produção musical em um porto Atlântico.
Em 2016, saíram de Ari Lima. Uma Crítica Cultural sobre o Pagode Baiano: música que se ouve, se dança e se observa; Carlos Ailton da Conceição Silva. Os Belos, o Trânsito e a Fronteira: um estudo sócioantropológico sobre o discurso autorreferente do Ilê Ayiê; Marlon Marcos. Oyá-Bethânia: os mitos de um orixá nos ritos de uma estrela.   
Eles deixam explicito que o site oficial do projeto disponibiliza o conteúdo inédito e versões digitais dos livros: www.sonsdabahia.wordpress.com   
Já ia esquecendo. Eu e o  professor  Luiz Mott, publicamos, agora, em 2016, pela Edufba, o livro A Comida Baiana. Cardápios de um prisioneiro ilustre ( 1763)